O percurso construído para o curso de verão do Santuário de Fátima levou-nos a caminhar, entre os dias 2 e 4 de julho, nos “Capítulos para a História de Fátima”. E foi a partir da génese de Fátima que, com os diferentes intervenientes, viajámos entre a fé, a história e a forma como o mundo a vê.
As aparições de Fátima acontecem em 1917, num período particularmente difícil, a vários níveis, desde logo pela I Guerra Mundial, que já durava há três anos e só veria um sinal da paz em 1918. Fátima foi efetivamente vista como um sinal de Esperança para muitos, o qual agora, mais de um século volvido, tem ainda mais clareza.
“A Praça Vermelha de Moscovo tem a sua resposta na Praça Branca de Fátima”, numa comparação do cardeal americano Fulton Sheen, que nos foi trazida pelo investigador José Manuel Sardica. Apesar das dificuldades históricas em comprovar o fenómeno de Fátima, as questões de fé e a narrativa genuína dos Pastorinhos, fizeram com que se tornasse um acontecimento reconhecido e que perdura.
A Mensagem de Fátima tem um alcance mundial e apresenta-nos também o desafio de nos debruçarmos sobre o nosso tempo, num mundo em grande mudança, fruto das novas realidades como a globalização, a tecnologia e o pluralismo das sociedades. “As redes sociais estão a transformar a nossa perceção da vida”, alerta o cardeal António Marto, lembrando que as pessoas estão interconectadas, mas na realidade não estão verdadeiramente unidas. A misericórdia, a recuperação, a esperança e a Paz, são sinais de Fátima que nos levam a acreditar na humanidade enquanto motor do bem.
Apesar das tentativas de usar Fátima como arremesso político ou fonte de especulação económica, sobretudo pela incompreensão do “fenómeno”, a mensagem de Paz e Esperança passou para o mundo e levou à construção de uma verdadeira identidade coletiva, materializada na Capelinha das Aparições e no Santuário de Fátima. Fátima rompeu com o universo religioso vigente, como transmitiu o investigador Alfredo Teixeira, acabando por ser inscrita como expressão da modernidade portuguesa e centro de peregrinação, representando a passagem de um plano local para o nacional, e mesmo internacional. Não podemos deixar de evidenciar a especial ligação dos Papas a Fátima, que iniciou com o Papa Pio XII, o qual muitas vezes é considerado o “Primeiro Papa de Fátima”.
Através do Jornal A Voz da Fátima, conseguimos identificar esta evolução, imaterial e também material, num descampado que deu lugar ao atual Santuário, bem como as notícias do início das peregrinações organizadas a Fátima. E são estas peregrinações e a sua razão de ser que também merecem a nossa especial atenção, cientes da necessidade de atualização dos dados existentes. Em 2011/2012, de acordo com o estudo realizado por Alfredo Teixeira, cerca de 90% dos portugueses já tinham ido a Fátima, o que demonstra a importância deste destino enquanto “centro fundamental da experiência do que é o território nacional”.
Ao longo destes três dias de partilha, promovidos no Curso de Verão do Santuário de Fátima e que envolveram pessoas de diversas áreas, foi reforçada a importância histórica de Fátima e a pertinência de continuar a trabalhar esta ideia da matéria identitária que liga Portugal ao Mundo.
